quinta-feira, 23 de novembro de 2017

COISAS QUE ALEGRAM MEU DIA DE TRABALHO

Hoje, aconteceu um fato bem legal no meu trabalho e eu queria compartilhar com vocês.

Geralmente, em um dia comum, costumo atender cerca de 5-7 pacientes por manhã. Se você ainda não sabe, sou fisioterapeuta – com muito orgulho – especialista em fisioterapia traumato-ortopédica.

Mas hoje não é um dia comum - tanto que estou as 10:27 da manhã tendo tempo para escrever esse texto -, pois é um dia chuvoso e a maioria dos pacientes faltam ao atendimento.

Não vou entrar no mérito dos motivos que os levam a faltar ou não, cada um sabe das suas necessidades.

Mas, vou falar da única paciente que veio a consulta nesse dia chuvoso – até agora.
Essa, é uma das muitas pacientes que tenho com dor crônica, mas especificamente, com dor lombar crônica.

Regularmente, tenho o hábito de aplicar a Educação em dor com Base na Neurociência (EBN) em meus pacientes.

O principal objetivo que tenho com a utilização da EBN, é fazer com que eles entendam que a dor crônica é multifatorial e vários fatores podem influenciar tanto na melhora quanto na piora dos sintomas dolorosos. 

Mas, sou muito criterioso com esse processo de educação, não sigo nenhuma “receita de bolo”, procuro direcionar a forma de aplicação de acordo com as necessidades de cada paciente. Pois uma série de fatores podem influenciar – positivamente ou negativamente – na hora de explicar o paciente sobre os mecanismos neurofisiológicos da dor.

Mesmo usando metáforas, ilustrações e diagramas, muitos pacientes não conseguem entender a informação que você quer passar. O grau de instrução, a relação terapeuta-paciente e a motivação do paciente, são fatores que tenho observado que influenciam nesse processo de aceitação e compreensão da EBN. 

A maioria dos pacientes que atendo tem um baixo nível de instrução, muitos não tem se quer o ensino fundamental – triste realidade do nosso país.

Ou seja: muito mal conseguem ler, quem dirá entender uma explicação sobre neurofisiologia da dor.

Portanto, na maioria das vezes, ensiná-los é um grande desafio que requer: treino, prática, conhecimento, empatia e paciência.

Essa paciente que vos falo, tem um bom entendimento e vem evoluindo bem com o tratamento, pois é muito participativa e segue muito bem a maioria das orientações domiciliares.

Em pacientes com dor crônica, não adianta o profissional de saúde querer ser o “centro das atenções”, o “mago da terapia manual”, nem o detentor da “cura milagrosa”.

Se você não conseguir fazer o paciente participar ativamente do processo de reabilitação, mudando os hábitos de vida e seguindo as orientações domiciliares, você vai ficar “enxugando gelo”.

Terapeuta e paciente tem que “jogar junto”, tem que ser parceria onde cada um faz a sua parte.

Mas, sem dúvidas, a parte individual do paciente vai ser sempre mais importante, especialmente na dor crônica.

Na semana passada, em nossa última consulta, a paciente em questão me fez a seguinte pergunta: “Ainda não entendo muito bem o porquê dessa dor não passar, já faz tanto tempo e ela não vai embora. Dr., por que eu sinto essa dor, é por causa da artrose?”

Era a “deixa” que eu precisava.

Eu já havia conversado com ela sobre os fatores que podem influenciar a dor, como o nível de estresse, noites mal dormidas, humor, experiências passadas, sedentarismo, entre outras coisas.

Inclusive, no primeiro dia da avaliação a principal queixa que ela relatou foi “dificuldade para dormir”.

Em virtude disso, inicialmente, decidimos em conjunto – sim, as decisões terapêuticas devem levar em consideração a opinião e os valores do paciente – por utilizar técnicas de higienização para o sono.

Em uma semana fazendo algumas pequenas mudanças, a paciente já relatou uma melhora considerável na qualidade do sono e na percepção subjetiva da dor ao acordar (EVA pré: 6; EVA pós: 3).

No site www.pesquisaemdor.com.br existem diversos instrumentos que ajudam o profissional a orientar o paciente sobre como melhorar em diversos aspectos, inclusive a qualidade do sono.

Nesse mesmo site, eles disponibilizam uma cartilha para os pacientes como dor. A linguagem da cartilha é simples e de fácil entendimento, explicando justamente o “porquê” as pessoas sentem dor e quais fatores podem melhorar ou piorar os sintomas dolorosos. 
   
Eu não tinha entregue a cartilha para essa paciente, ainda, pois ela é um pouco extensa (12 páginas) e nem todo paciente tem “paciência” e interesse em ler.

Quando o paciente se mostra disposto, favorável e interessado, a cartilha se torna uma excelente ferramenta para ajudar no processo da EBN.

Quantas vezes você já leu algo que não estava afim ou que não lhe interessasse e não absorveu nada do conteúdo? Acredito que várias vezes.

É o mesmo princípio, se você “encher” o paciente de papel e questionários já no primeiro atendimento, antes de construir uma boa relação terapeuta-paciente e entender as demandas especificas daquela pessoa, tem grandes chances dele nem voltar na consulta seguinte. 

Então, depois que ela me fez a pergunta, eu imediatamente imprimi a cartilha e pedi que ela desse uma lida, sem pressa, até a próxima consulta. Assim, nós iriamos conversar melhor sobre o assunto e eu iria ajudá-la caso ela ficasse com alguma dúvida.

Hoje ela voltou.

Como eu disse anteriormente, a ÚNICA que veio ao atendimento em um dia chuvoso (agora já são 11:29h da manhã).

Adentrou ao setor esbaforida, cheia de sacolas na mão – pois estava vindo do mercado - e disse: “Dr., sei que estou atrasada. Não vou fazer fisioterapia hoje, mas posso entrar?”.

- Claro! Respondi.

Então ela disse que só tinha vindo para conversas sobre a cartilha.

Disse que leu tudo e que achou muito interessante. 

Além disso, mostrou para o marido - que também tem uma “dor nas costas que não passa” -, irmã e para a nora.

Conversou com todos, mostrou tudo que ela estava fazendo para melhorar sua dor e o que essas pessoas poderiam fazer para melhorar também.

- Muitas coisas que eu li aqui eu já faço, principalmente os exercícios. Disse ela.

Disse para irmã que “esse estresse todo que ela tem pode estar aumentando a dor no joelho”, que ela deveria “relaxar mais e fazer exercícios”.

Disse para o marido que “ele faz bem em não deixar de fazer as coisas do dia a dia por causa da dor, porque ficar parado só vai fazer a dor piorar”.

Orientou a nora a dormir melhor, “pois o sono é fundamental para o bom funcionamento do corpo” (a nora está grávida!).

Enfim, ela veio só para me agradecer e contar como ela usou a cartilha.

No final, eu perguntei: “E agora, a senhora já sabe o motivo dessa dor não passar?”

- Agora eu conheço bem mais o meu corpo e sei que a dor pode ser resultado de um monte de coisas. Se a pessoa não se ajudar, o senhor não tem como fazer milagre, né? Ela respondeu.

Pronto, missão cumprida e mais um dia feliz garantido!

Lembre-se: incentivar hábitos de vida saudáveis e ensinar o autocuidado, são fundamentais para o sucesso do tratamento da pessoa com dor crônica.

Até o próximo “coisas que alegram meu dia de trabalho”.


Prof. Alexsandro Oliveira

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