quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

ENTORSE LATERAL DE TORNOZELO: PARTE I


Boa tarde, pessoal!

Hoje, vamos começar a falar um pouco sobre a entorse lateral de tornozelo. Tema “batido”, né?! Pois é. Principalmente na graduação, com a minha experiência na supervisão de estágio, os alunos muitas vezes chegam querendo um caso “diferente” pra atender. Aquele caso mais raro, incomum, que poucas pessoas já viram ou trataram, pra poder contar para os colegas e levar aquela experiência para o resto da vida profissional. Ok. Atender um caso raro é legal, é diferente, motivante e desafiador, pois faz você estudar e aprender coisas geralmente novas. Mas, sabe aquela lesão ou doença que é vista com mais frequência no ambulatório? Então, essa você tem que saber (saber bem!). Saber conduzir o manejo de uma lesão ou doença que você vai ver pouquíssimas vezes na sua vida profissional é legal. Mas, NÃO saber lhe dar com uma lesão ou doença que você vai ver frequentemente no seu dia-a-dia, com certeza vai lhe trazer grandes prejuízos (inclusive financeiros!). 
Por isso escolhi falar um pouco sobre a entorse lateral de tornozelo, que é uma lesão musculoesquelética altamente prevalente, principalmente no meio esportivo, porém, ainda vejo muitos profissionais e acadêmicos com dificuldades na hora de avaliar e tratar corretamente essa lesão. 
A ideia é abordar os principais parâmetros qualitativos e objetivos de avaliação da entorse lateral de tornozelo, assim como as principais condutas terapêuticas. Nessa primeira parte vamos introduzir um pouco o assunto e, nos próximos textos, vamos falar sobre avaliação e tratamento. Ok?!
 Então, vamos lá!

INTRODUÇÃO

A entorse lateral de tornozelo é uma das lesões musculoesqueléticas com maior incidência, principalmente no esporte. Estima-se que a taxa de incidência seja de 2,15 por 1.000 pessoas a cada ano na população em geral. Quando falamos de pessoas fisicamente ativas ou atletas, essa taxa sobe e varia entre 35 e 48 por 1.000 pessoas anualmente. Fica ainda mais claro a alta incidência da entorse lateral de tornozelo, quando comparada por exemplo a lesão do Ligamento Cruzado Anterior (LCA), que tem uma taxa de incidência de aproximadamente 0,24 para cada 1.000 pessoas saudáveis. Isso não deixa dúvidas que a entorse lateral do tornozelo é uma lesão musculoesquelética muito presente na prática clínica do fisioterapeuta, sendo assim de fundamental importância dominar o manejo dos pacientes com esse tipo de lesão, certo?!

De uma forma geral, a entorse de tornozelo pode ocorrer em inversão (lateral) ou eversão (medial), sendo a entorse por inversão a mais comum. A entorse em inversão ainda pode ser subdividida em duas categorias: entorses laterais agudas e instabilidade crônica do tornozelo.

Entorses laterais agudas: geralmente pacientes com até 72 horas após a lesão ou pacientes que apresentem edema significativo, dor, descarga de peso corporal limitada e alterações da marcha;
Instabilidade crônica do tornozelo: tem como principais características sintomas residuais de lesão anterior (período pós-agudo), instabilidade articular (mecânica e/ou subjetiva), fraqueza muscular, alteração no equilíbrio e déficit sensório-motor (atraso na ativação dos músculos fibulares e alteração no senso de posicionamento articular).

A instabilidade mecânica caracteriza-se pela hipermobilidade das articulações subtalar e talocrural, e a instabilidade subjetiva é caracterizada pela percepção do paciente na ausência de hipermobilidade comprovada pelos testes clínicos.

- No decorrer desse texto vamos falar mais sobre a entorse lateral aguda do tornozelo, ok?!

ANATOMIA

Geralmente, os mecanismos de lesões da entorse lateral de tornozelo são clássicos: ao se aterrissar de um salto (Ex: jogando vôlei), pisar em um buraco ou em uma irregularidade no solo (bem possível nas ruas do RJ!), ao descer de um degrau de escada ou meio-fio (principalmente as mulheres do salto alto!), entre outros.  Na entorse lateral aguda do tornozelo acontece um estiramento ou ruptura parcial/total dos ligamentos laterais do tornozelo (talofibular anterior, calcaneofibular e talofibular posterior). Dentre os ligamentos, sem dúvidas o mais acometido é o talofibular anterior. Estima-se que em cerca de 73% das entorses laterais do tornozelo ocorrem lesões isoladas do talofibular anterior.
Ligamentos Laterais do Tornozelo

É importante lembrar que no tornozelo não existem somente ligamentos, existindo também outras estruturas que podem estar lesionadas e colaborar para complicações em relação a dor, instabilidade e limitação funcional. Dessa forma, é sempre bom fazer um processo de triagem para descartar possíveis lesões mais sérias, como por exemplo as fraturas maleolares, de diáfise da fíbula e da base do quinto metatarso, que são as mais comuns após uma entorse lateral aguda do tornozelo.

TRIAGEM

Nessa fase, é importante ficar atento para identificação de possíveis bandeiras vermelhas (leia o artigo sobre dor lombar para relembrar o que é bandeira vermelha).

Como citado anteriormente, uma das consequências graves da entorse lateral aguda do tornozelo são as fraturas. Para eliminar as suspeitas de fraturas, é recomendável que o fisioterapeuta siga as regras de Ottawa, que já tem uma boa aceitação no meio clinico e acadêmico para auxiliar no diagnóstico diferencial. As regras de Ottawa dizem que a radiografia é indicada quando existir dor na região malelolar e um dos seguintes critérios:

- Dor à palpação dos 6cm distais e posteriores do maléolo lateral;
- Dor à palpação ao redor do maléolo medial;
- Incapacidade de suportar o peso corporal por quatros passos consecutivos.

Tais achados estão geralmente associados a entorses mais graves e com possíveis fraturas maleolares.
As regras de Ottawa também afirmam que a radiografia também é indicada em casos de dor na região do médio-pé e qualquer um dos seguintes critérios:

- Sensibilidade e/ou desconforto na base do quinto metatarso;
- Palpação dolorosa sobre o osso navicular;
- Incapacidade de suportar o peso corporal por quatro passos consecutivos.

Seguindo esses critérios, você já consegue descartar ou não a suspeita de fratura e, assim, direcionar o melhor tratamento para o paciente. Uma entorse lateral de tornozelo pode ser algo relativamente simples, como um “simples” estiramento ligamentar, assim como pode ser algo que necessite de um procedimento cirúrgico, como uma fratura maleolar. Por isso, a melhor coisa a se fazer é avaliar com cuidado e responsabilidade.

CLASSIFICAÇÃO EM GRAUS DE GRAVIDADE

Geralmente ou tradicionalmente, a entorse lateral de tornozelo é classificada em graus, os “famosos” graus I, II e III. Esses graus representam a lesão nos ligamentos, com o grau I sendo o mais leve e o grau III, o mais grave. O problema é que muitos profissionais classificam de forma errônea, classificando somente o grau da lesão ligamentar, sem associar informações importantes, como por exemplo a capacidade funcional. Logo abaixo vou mostrar uma das classificações mais usadas na prática clínica para entorse lateral do tornozelo:

Grau I sem perda da função, sem frouxidão ligamentar (testes de gaveta anterior e inclinação talar negativos – vamos ver esses testes posteriormente), pouco ou nenhum hematoma (equimose leve), diminuição do movimento total do tornozelo de até 5° e edema até 0,5cm;
Grau II – leve perda de função, teste de gaveta anterior positivo (lesão do ligamento talofibular anterior), teste de inclinação talar negativo (sem envolvimento do ligamento calcaneofibular), hematoma, diminuição do movimento total do tornozelo entre 5° e 10° e edema entre 0,5 e 2,0cm;
Grau III – perda de função significativa (quase total), testes de gaveta anterior e inclinação talar positivos, hematoma, diminuição do movimento total do tornozelo maior que 10° e edema acima de 2,0cm.

Grande parte dos sistemas de classificação adotam medidas estáticas e/ou dinâmicas como critérios para ajudar na interpretação dos graus das escalas, o que nem sempre traduz uma classificação funcional e prática para o fisioterapeuta. A recomendação da Diretriz de Prática Clínica do Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy (JOSPT, 2013), é para que os fisioterapeutas usem os achados clínicos baseados no nível de função, frouxidão ligamentar, hematoma, amplitude total dos movimentos do tornozelo, edema e dor para classificar os pacientes com entorse lateral do tornozelo.

Agora que já falamos um pouco sobre os aspectos anatômicos, triagem e classificação em graus de gravidade, no próximo texto vamos falar mais profundamente sobre avaliação, abordar os principais parâmetros qualitativos e objetivos usados na avaliação da entorse lateral de tornozelo, como: amplitude de movimento, edema, escalas funcionais, testes ortopédicos, testes funcionais e estabilidade.

Espero que tenham gostado. Até a próxima!

Obs¹: Os textos desse blog são baseados em literatura cientifica (artigos e livros) e na experiência profissional do autor.

Obs²: Os textos desse blog servem como dicas e esclarecimentos para os leitores. Sendo assim, não substitui a orientação de um profissional de saúde habilitado, caso seja necessário.

Fonte e leitura sugerida:

1- Stiell et al. Ottawa ankle rules for radiography of acute injuries. N Z Med J. 1995 Mar;108(996):111;

2- Van der Wees et al. KNGF Guideline for Physical Therapy in patients with acute ankle sprain. Dutch J Physical Therapy. 2006;116(5):1-25;

3- Waterman et al. The epidemiology of ankle sprains in the United States. J Bone joint Surg Am. 2010 Oct 6;92(13):2279-84;

4- Martin et al. Ankle stability and movement coordination impairments: ankle ligament sprains. J Orthop Sport Phys. 2013 Sep;43(9):A1-40;

5- Junior et al. Resultado funcional relacionado ao posicionamento do enxerto na reconstrução do ligamento cruzado anterior. Rev Bras Ortop. 2015;50(1):57-67.









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